O estranho (novo) mercado de peixes digital

Não sei vocês, mas eu acho ser solteira na era da quarta revolução industrial difícil. Essa é a chamada de era digital, e também da era de menos contato.

É uma mescla de fatores que leva a criação dos aplicativos de namoro: falta de tempo + falta de habilidades sociais + praticidade de não precisar tomar um fora logo de cara.

Eu, particularmente, odeio esses aplicativos. E não por falta de tentar. Toda vez repito o mesmo ciclo: decido que já passou da hora de me abrir para o “mercado” e baixo o aplicativo, para excluir logo em seguida e me arrepender amargamente de ter visto o que vi.

Talvez eu devesse recapitular como cheguei nessa fase viciante que é o baixar, me assustar e excluir: Nunca fui a pessoa que saía para beijar na boca por beijar (e isso vai influenciar minha dificuldade em aceitar o app, mas vamos com calma). Com 18 anos eu saía sim, para as baladas da vida e ficava sim, com alguns carinhas que conhecia. Com 22 anos tive meu primeiro namorado sério. E foi um relacionamento a distância, abusivo (de ambas as partes, porquê sei que também agi com culpa, mesmo que influenciada e direcionada por ele) e extremamente exaustivo.

Sai desse relacionamento depois de quatro anos de desgaste mental e da demolição de quem eu era. Nesse relacionamento perdi toda a minha segurança em ser quem eu era e passei a duvidar de cada passo que eu dava. E isso atrapalhou minha volta por cima. Acostumada com agradar e acostumada com a necessidade de ter alguém mesmo que seja alguém ruim, me lancei em uma busca desesperadora por qualquer um que atendesse minhas necessidades de carência. Sai em encontros via o app, com caras que não queriam ouvir o que eu tinha para falar e que queriam apenas um sexo rápido, até que finalmente encontrei alguém que eu achava ser o que eu precisava. Foram dois meses (pouco, eu sei), mas meses intensos, pelo menos para mim. Até eu ouvir que não, essa pessoa não me queria todos os dias, só as vezes.

E doeu muito ouvir isso, e naquele momento eu ainda era a mulher programada para agradar, programada para precisar estar com alguém porque eu nunca seria feliz sozinha, certo? Errado.

Comecei nesse momento a minha desconstrução, não só por causa de uma decepção amorosa, mas por outros fatores da minha vida. Comecei a perceber como era ruim o fato de eu ser uma mulher machista, já que para encontrar alguém com quem eu me encaixasse eu precisava sair bastante e sair bastante era coisa de mulher fácil. A minha desconstrução e libertação do machismo (e depois de várias outras amarradas sociais que não vem ao caso nesse texto), junto com uma combinação de estudos sobre o feminismo e sobre a autodescoberta e amor próprio, me levaram a uma nova conclusão: Por que não posso ser sozinha?

Por que eu tenho que namorar? Ter alguém? Casar? Ter filhos? Por que o tempo estaria correndo para meu status de relacionamentos alheios, mas não para o relacionamento que eu tenho comigo? É uma pergunta muito poderosa para se fazer no auge dos seus 26 anos. E é uma afirmação muito libertadora dizer: não quero namorar ninguém, e nem beijar, e nem sair. Quero ser sozinha.

Não estou dizendo que vai ser para sempre, mas era o que eu precisava no momento. Precisava estar sozinha para entrar em um relacionamento comigo. E conhecer quem eu realmente era. E me desconstruir e construir de novo até chegar ao ponto em que finalmente tivesse a segurança de olhar no espelho e dizer: “eu me basto, e se alguém estiver comigo que seja para complementar o que já tenho e o que não tenho, não para me completar e nem me tornar inteira, porque isso eu já sou”.

Complementar é diferente de completar. Completar é encher, complementar é somar, adicionar, acrescentar. Dito tudo isso e chegado nessa conclusão, passei a viver por mim. Vivi do jeito que eu queria, sem esperar nada de ninguém e sem esperar de mim também. Passei a me portar do jeito que eu queria e não para, possivelmente, chamar atenção de alguém o como era esperado de mim. Sai para rir, para beber, beijei alguns caras sim, mas também continuei feliz em estar sozinha.

Sozinha também é diferente de solitária.

Com tudo isso em mente, chegou a hora de dizer: ok, estou pronta para tentar de novo, para me aventurar no mundo dos relacionamentos, dar uma nova chance ao app, coitadinho, não pode ser tão ruim e não pode ser culpa dele, certo?

Baixei o app de novo. Rolei alguns perfis. Excluí de novo. E entendi que o problema não era a falta do MEU amor próprio. O problema é a superficialidade de tudo aquilo. Em meia dúzia de linhas você não consegue descobrir nada. E sem o contato do olho no olho não tem aquele feeling de química instantânea que te dá um frio na barriga. No app você tem tempo de pensar e repensar suas respostas e tomar cuidado com o que escrever e com o que revelar, coisa que ao vivo não dá para fazer. Ou você responde na hora, ou você corre o risco de parecer estar tendo um derrame antes de responder.

Percorri esse caminho todo para descobrir que, se for para sair da solteirice, vai ter que ser ao vivo, da moda antiga, olho no olho e uma proza gostosa. E que se não for para sair, tudo bem também. A Maria gosta da companhia da Maria, e quem melhor do que a Maria para conhecer… A Maria?

A culpa não é do app, ele não é feito para mim. E está tudo bem. Se ele for feito para você, está tudo bem também.

A única coisa que não pode estar bem, é o medo que temos em estar sozinhos. Estar sozinho pode ser maravilhoso. Se amar é maravilhoso.

Maria

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